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Sistemas Alimentares: o que são e como impactam sua vida?

Entenda o que são sistemas alimentares e como as escolhas por trás da sua comida impactam sua saúde, o meio ambiente, a economia e a sociedade

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Atualizado: 

20/10/2025
Sistemas Alimentares: o que são e como impactam sua vida?

O alimento no seu prato é muito mais que nutrição, é o resultado de uma complexa rede de decisões políticas, econômicas e ambientais.

Esse sistema, do campo à mesa, define não apenas o sabor da sua refeição, mas também a sua saúde e a do planeta, as condições de trabalho de milhões de pessoas e o futuro dos nossos recursos naturais.

Enquanto um modelo dominante gera desmatamento e desigualdade, uma contracorrente de sistemas alimentares sustentáveis resiste, promovendo comida de verdade, saúde e justiça social.

Vamos decifrar como tudo isso funciona, e por que você é uma peça fundamental nesse quebra-cabeça?

 

O que são sistemas alimentares (ou agroalimentares)?

Os sistemas alimentares englobam todas as atividades, pessoas e recursos envolvidos na produção, processamento, transporte, distribuição, consumo e descarte de alimentos1.

Eles refletem escolhas da sociedade, moldando o que chega ao nosso prato, o preço que pagamos e os impactos que essa jornada causa.

No Brasil, essa dinâmica é complexa.

De um lado, temos uma imensa sociobiodiversidade: biomas ricos, povos e comunidades tradicionais com saberes ancestrais e uma cultura alimentar diversificada.

De outro, predomina um modelo baseado em commodities (como soja e gado), voltado para exportação e dependente de monoculturas, agrotóxicos e alta demanda de recursos naturais.

Ou seja, enquanto esse modelo concentra, ameaça e devasta, existem outros sistemas alimentares que resistem e promovem formas de produzir alimentos adequados, saudáveis e sustentáveis.

 

As etapas do sistema alimentar dominante

Para visualizar melhor, podemos dividir o sistema alimentar em cinco etapas interligadas:

 

1. Produção (Campo)

É o cultivo e a pecuária.

O modelo dominante se baseia em monoculturas extensivas e pecuária intensiva, levando ao desmatamento e ao esgotamento do solo2.

Já a agricultura familiar e a agroecológica priorizam policulturas, rotatividade e harmonia com os biomas3.

 

2. Processamento (Indústria)

Nessa fase, os alimentos são transformados.

Enquanto métodos de processamento mínimo preservam nutrientes, a indústria de ultraprocessados adiciona altos teores de açúcar, sal, gordura e aditivos cosméticos — criando produtos como refrigerantes e salgadinhos, com impactos negativos à saúde e ao meio ambiente4.

 

3. Distribuição e Comercialização (Logística e Venda)

É como o alimento chega até você.

Grandes redes e cadeias globais priorizam produtos padronizados e de longa duração.

Já os sistemas que encurtam a distância entre produtores e consumidores, como feiras locais, fortalecem a economia regional e ampliam o acesso a alimentos saudáveis e sustentáveis.

 

4. Consumo (Preparo e Prato)

É o momento da escolha e da refeição.

Dietas homogêneas, ricas em ultraprocessados, são reflexo direto desse sistema e de suas estratégias, como a publicidade5.

Optar por comida de verdade, in natura e minimamente processada, é um ato de resistência, embora nem sempre seja fácil em um país cheio de desigualdades.

 

5. Descarte (Fim da Linha)

É o que sobra.

Cerca de ⅓ de toda a produção de alimentos no mundo é desperdiçada6, gerando emissões de gases de efeito estufa e desperdiçando energia e recursos.

Compostagem e consumo consciente são alternativas viáveis para reduzir esses impactos.

 

Por que chamar de sistemas agroalimentares?

Mas não era “sistema alimentar”?

Sim, o termo ainda é amplamente utilizado por autores, organizações e organismos internacionais para se referir a essa rede de atividades, setores e pessoas.

Porém, a incorporação do prefixo “agro” vem sendo adotada para deixar mais claro o envolvimento das atividades agropecuárias nas diferentes etapas que formam esse sistema dominante7

 

Os impactos do sistema dominante

Compreender os sistemas agroalimentares é essencial para entendê-los não apenas como geradores de problemas, mas também como potenciais soluções.

Eles envolvem questões ambientais, climáticas, culturais e sociais, além de tocar diretamente em um direito fundamental: a alimentação adequada e saudável. 

 

Impactos socioambientais

O sistema dominante é um dos maiores vetores de degradação ambiental.

O desmatamento para pastagens e monoculturas destrói habitats, acelera as mudanças climáticas e ameaça a sociobiodiversidade — conceito que une a diversidade biológica à cultural8.

Povos indígenas e comunidades tradicionais, guardiões desses ecossistemas, são pressionados e expulsos de seus territórios.

A dependência do uso de venenos (agrotóxicos) para produção contamina solos, águas e a saúde das populações.

A expansão da soja no Cerrado e da pecuária na Amazônia são exemplos de práticas que transformam as paisagens e os modos de vida desses biomas, alterando os ecossistemas e marginalizando as comunidades locais.

 

Impactos sociais e violações de direitos humanos

As cadeias produtivas de commodities estão associadas a violações de direitos humanos9.

Na pecuária e nas grandes monoculturas, são recorrentes casos de trabalho análogo à escravidão, invasão de terras indígenas e conflitos agrários.

A falta de transparência e rastreabilidade permite que essas violações permaneçam escondidas atrás de produtos comuns nas prateleiras.

 

Impactos na saúde e na nutrição

O sistema dominante promove dietas homogêneas e pouco nutritivas.

O consumo excessivo de ultraprocessados e de carnes vermelhas e processadas aumenta o risco de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, obesidade e hipertensão10.

Além disso, a má alimentação contribui para a fome e a insegurança alimentar e nutricional (INSAN).

 

Concentração de poder e perda cultural

Esse modelo concentra terra, dinheiro e poder nas mãos de poucas corporações, enfraquecendo a soberania e segurança alimentar de nações e comunidades.

Ao mesmo tempo, apaga culturas alimentares tradicionais, substituindo saberes ancestrais por um paladar globalizado e padronizado11.

 

Sistemas agroalimentares sustentáveis: uma saída possível  

O sistema agroalimentar dominante, como vimos, é uma engrenagem complexa que gera perda ambiental, injustiça social, problemas de saúde pública e homogeneização cultural.

Ele é insustentável, injusto e pouco transparente.

Mas a história não termina aqui.

A crescente conscientização tem fortalecido alternativas como a agroecologia, a agricultura familiar, os canais curtos de comercialização e o consumo consciente.

Cada escolha de compra — dar preferência a feiras orgânicas, conhecer a origem dos produtos, reduzir o consumo de ultraprocessados — é um voto por um sistema alimentar mais justo, saudável e sustentável para as pessoas e para o planeta.

Comer é um ato político!

Vamos lutar pela mudança desse sistema juntos? Uma refeição de cada vez.

 

REFERÊNCIAS:

1- Instituto de Defesa de Consumidores (Idec). As cinco dimensões dos sistemas alimentares no Brasil: uma revisão de literatura. São Paulo, 2022. Disponível em: <https://alimentandopoliticas.org.br/wp-content/uploads/2021/11/af-IDEC-R....
2- Bronoski, B. Quem salvará o arroz, o feijão e a mandioca? O Joio e O Trigo, 22 jan. 2024. Disponível em: <https://ojoioeotrigo.com.br/2024/01/arroz-o-feijao/> . Acesso em: 7 out. 2025.
3- Guhur, D et da Silva, N R. Agroecologia. In: Dias, A.; Stauffer, A.; Moura, L H.; Vargas, M C. (orgs.). Dicionário de agroecologia e educação. Rio de Janeiro: Fiocruz. São Paulo: Expressão Popular, 2021. p.59-72.
4 - Monteiro, C. A.; Levy, R. B.; Claro, R. M.; Castro, I. R. R.; Cannon, G. A new classification of foods based on the extent and purpose of their processing. Cadernos de Saúde Pública 2010, v. 26, nº 11, p. 2039-2049.
5- ACT Promoção da Saúde; Instituto de Defesa de Consumidores (Idec). Dossiê Big Food: como a indústria interfere em políticas de alimentação. 2022. Disponível em: <https://actbr.org.br/uploads/arquivos/DOSSIE-BIG-FOOD_Como-a-industria-i....
6- Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).
7- Favareto A., Sanseverino E.C., Nunes-Galbes N.M., Dórea O., Marrocos-Leite F.H. COP30 no Brasil – Por uma transição justa e sustentável do sistema agroalimentar. São Paulo, Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis, FSP/USP; 2025.
8- Diegues, A.; Arruda, R. (orgs.). Saberes tradicionais e biodiversidade no Brasil. Brasília: Ministério do Meio Ambiente; São Paulo: USP/Nupaub, 2001.
9- Global witness. Seeds of Conflict: How global commodity traders contribute to human rights abuses in Brazil's soy sector. 2021.
Environmental Investigation Agency (EIA). Quem comprou o gado ilegal do território Apyterewa?. 2024.
10- Nilson, E.; Ferrari, G.; Louzada, M.L.; Levy, R.; Monteiro, C. Rezende, L. Premature Deaths Attributable to the Consumption of Ultraprocessed Foods in Brazil. American Journal of Preventive Medicine, [S.l.], 2022.
Liang, J., Zhao, JK., Wang, JP. et al. Association between animal source foods consumption and risk of hypertension: a cohort study. Eur J Nutr 60, 2469–2483 (2021).
Shi W, Huang X, Schooling CM, Zhao JV. Red meat consumption, cardiovascular diseases, and diabetes: a systematic review and meta-analysis. Eur Heart J. 2023 Jul 21;44(28):2626-2635.
11- Center for Biological Diversity; World Animal Protection (WAP); Global Forest Coalition; Brighter Green; Aquatic Life institute.  A transição justa da produção animal industrial para sistemas alimentares equitativos, humanitários e sustentáveis. 2024. Disponível em: <https://www.biologicaldiversity.org/programs/population_and_sustainabili....