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Atualizado:
O alimento no seu prato é muito mais que nutrição, é o resultado de uma complexa rede de decisões políticas, econômicas e ambientais.
Esse sistema, do campo à mesa, define não apenas o sabor da sua refeição, mas também a sua saúde e a do planeta, as condições de trabalho de milhões de pessoas e o futuro dos nossos recursos naturais.
Enquanto um modelo dominante gera desmatamento e desigualdade, uma contracorrente de sistemas alimentares sustentáveis resiste, promovendo comida de verdade, saúde e justiça social.
Vamos decifrar como tudo isso funciona, e por que você é uma peça fundamental nesse quebra-cabeça?
O que são sistemas alimentares (ou agroalimentares)?
Os sistemas alimentares englobam todas as atividades, pessoas e recursos envolvidos na produção, processamento, transporte, distribuição, consumo e descarte de alimentos1.
Eles refletem escolhas da sociedade, moldando o que chega ao nosso prato, o preço que pagamos e os impactos que essa jornada causa.
No Brasil, essa dinâmica é complexa.
De um lado, temos uma imensa sociobiodiversidade: biomas ricos, povos e comunidades tradicionais com saberes ancestrais e uma cultura alimentar diversificada.
De outro, predomina um modelo baseado em commodities (como soja e gado), voltado para exportação e dependente de monoculturas, agrotóxicos e alta demanda de recursos naturais.
Ou seja, enquanto esse modelo concentra, ameaça e devasta, existem outros sistemas alimentares que resistem e promovem formas de produzir alimentos adequados, saudáveis e sustentáveis.
As etapas do sistema alimentar dominante
Para visualizar melhor, podemos dividir o sistema alimentar em cinco etapas interligadas:
1. Produção (Campo)
É o cultivo e a pecuária.
O modelo dominante se baseia em monoculturas extensivas e pecuária intensiva, levando ao desmatamento e ao esgotamento do solo2.
Já a agricultura familiar e a agroecológica priorizam policulturas, rotatividade e harmonia com os biomas3.
2. Processamento (Indústria)
Nessa fase, os alimentos são transformados.
Enquanto métodos de processamento mínimo preservam nutrientes, a indústria de ultraprocessados adiciona altos teores de açúcar, sal, gordura e aditivos cosméticos — criando produtos como refrigerantes e salgadinhos, com impactos negativos à saúde e ao meio ambiente4.
3. Distribuição e Comercialização (Logística e Venda)
É como o alimento chega até você.
Grandes redes e cadeias globais priorizam produtos padronizados e de longa duração.
Já os sistemas que encurtam a distância entre produtores e consumidores, como feiras locais, fortalecem a economia regional e ampliam o acesso a alimentos saudáveis e sustentáveis.
4. Consumo (Preparo e Prato)
É o momento da escolha e da refeição.
Dietas homogêneas, ricas em ultraprocessados, são reflexo direto desse sistema e de suas estratégias, como a publicidade5.
Optar por comida de verdade, in natura e minimamente processada, é um ato de resistência, embora nem sempre seja fácil em um país cheio de desigualdades.
5. Descarte (Fim da Linha)
É o que sobra.
Cerca de ⅓ de toda a produção de alimentos no mundo é desperdiçada6, gerando emissões de gases de efeito estufa e desperdiçando energia e recursos.
Compostagem e consumo consciente são alternativas viáveis para reduzir esses impactos.
Por que chamar de sistemas agroalimentares?
Mas não era “sistema alimentar”?
Sim, o termo ainda é amplamente utilizado por autores, organizações e organismos internacionais para se referir a essa rede de atividades, setores e pessoas.
Porém, a incorporação do prefixo “agro” vem sendo adotada para deixar mais claro o envolvimento das atividades agropecuárias nas diferentes etapas que formam esse sistema dominante7.
Os impactos do sistema dominante
Compreender os sistemas agroalimentares é essencial para entendê-los não apenas como geradores de problemas, mas também como potenciais soluções.
Eles envolvem questões ambientais, climáticas, culturais e sociais, além de tocar diretamente em um direito fundamental: a alimentação adequada e saudável.
Impactos socioambientais
O sistema dominante é um dos maiores vetores de degradação ambiental.
O desmatamento para pastagens e monoculturas destrói habitats, acelera as mudanças climáticas e ameaça a sociobiodiversidade — conceito que une a diversidade biológica à cultural8.
Povos indígenas e comunidades tradicionais, guardiões desses ecossistemas, são pressionados e expulsos de seus territórios.
A dependência do uso de venenos (agrotóxicos) para produção contamina solos, águas e a saúde das populações.
A expansão da soja no Cerrado e da pecuária na Amazônia são exemplos de práticas que transformam as paisagens e os modos de vida desses biomas, alterando os ecossistemas e marginalizando as comunidades locais.
Impactos sociais e violações de direitos humanos
As cadeias produtivas de commodities estão associadas a violações de direitos humanos9.
Na pecuária e nas grandes monoculturas, são recorrentes casos de trabalho análogo à escravidão, invasão de terras indígenas e conflitos agrários.
A falta de transparência e rastreabilidade permite que essas violações permaneçam escondidas atrás de produtos comuns nas prateleiras.
Impactos na saúde e na nutrição
O sistema dominante promove dietas homogêneas e pouco nutritivas.
O consumo excessivo de ultraprocessados e de carnes vermelhas e processadas aumenta o risco de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, obesidade e hipertensão10.
Além disso, a má alimentação contribui para a fome e a insegurança alimentar e nutricional (INSAN).
Concentração de poder e perda cultural
Esse modelo concentra terra, dinheiro e poder nas mãos de poucas corporações, enfraquecendo a soberania e segurança alimentar de nações e comunidades.
Ao mesmo tempo, apaga culturas alimentares tradicionais, substituindo saberes ancestrais por um paladar globalizado e padronizado11.
Sistemas agroalimentares sustentáveis: uma saída possível
O sistema agroalimentar dominante, como vimos, é uma engrenagem complexa que gera perda ambiental, injustiça social, problemas de saúde pública e homogeneização cultural.
Ele é insustentável, injusto e pouco transparente.
Mas a história não termina aqui.
A crescente conscientização tem fortalecido alternativas como a agroecologia, a agricultura familiar, os canais curtos de comercialização e o consumo consciente.
Cada escolha de compra — dar preferência a feiras orgânicas, conhecer a origem dos produtos, reduzir o consumo de ultraprocessados — é um voto por um sistema alimentar mais justo, saudável e sustentável para as pessoas e para o planeta.
Comer é um ato político!
Vamos lutar pela mudança desse sistema juntos? Uma refeição de cada vez.





