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Antes de tudo, é preciso reconhecer: comer com calma, atenção e em companhia é algo difícil e até impossível para muita gente.
Ao trazer esse assunto, não pretendemos que ninguém saia capaz de transformar sua rotina em um instante e muito menos sinta culpa. Afinal, não é coincidência que o momento de comer perdeu espaço e importância para a produtividade. Quanto menos tempo a gente tem, mais a indústria de ultraprocessados aparece com promessas de produtos “fáceis”, “práticos” e “deliciosos”.
Mas é importante que possamos perceber isso e, como for possível, recuperar nossa relação com o ato de comer. Ainda que essa transformação não dependa apenas de decisões individuais, tais reflexões e pequenas mudanças no cotidiano e na estrutura que sustenta esse problema podem abrir caminhos para essa jornada.
Os obstáculos do mundo real
Jornadas longas, deslocamentos, múltiplas tarefas, falta de tempo, dinheiro e até de um espaço adequado são desafios concretos para uma alimentação adequada e saudável. Em muitas casas não há mesa; em muitos trabalhos, não há pausa suficiente; em muitas rotinas, comer rápido é uma necessidade, não uma escolha.
A sensação constante de pressa, alimentada pelo estresse e pela ansiedade, favorece escolhas prontas, refeições corridas, o consumo de ultraprocessados e fast food.
Soma-se a isso uma sociedade hiperestimulada, em que comer trabalhando, mexendo no celular ou assistindo a algo virou hábito. Não é só conter uma distração, é um excesso de tarefas e notificações disputando nossa atenção.
Mais do que comida, um direito
Falar de comer consciente é falar de condições de vida. Ter tempo para cozinhar e comer, acesso a alimentos saudáveis e um ambiente digno para as refeições é uma questão de direitos.
O Guia Alimentar para a População Brasileira reconhece essas desigualdades e propõe recomendações possíveis, adaptadas à realidade das famílias.
Promover comensalidade, ou seja, compartilhar o momento da refeição, e atenção à alimentação passa por políticas públicas, direitos trabalhistas, justiça social e pela nossa escolha de ter atenção e conexão com o que e como estamos comendo - o que explica os ataques da indústria dos ultraprocessados a esse documento.
Por isso, nós defendemos o Guia com firmeza e seu apoio fortalece essa luta!
Ao se associar ao Idec você contribui com nossa atuação junto ao poder público e com a população, e se torna parte desse movimento de consumidores que querem mudanças e que apoiam a disseminação de informações sobre alimentação saudável. 💪
Pequenos gestos que fazem diferença
A boa notícia é que comer consciente não exige perfeição.
O Guia Alimentar destaca que a forma como comemos é tão relevante quanto o que comemos. Não é sobre atingir um ideal inalcançável, mas sim, resgatar a atenção, o prazer e o sentido social da alimentação.
Então anote essas recomendações:
- Reduzir distrações quando dá: não precisa abolir o celular ou a TV sempre, mas tentar, ao menos em algumas refeições da semana, comer com menos estímulos externos. Sentar-se à mesa, se for possível, somente com seu prato, te ajudará nessa missão.
- Valorizar o momento: mesmo uma refeição simples, como um prato feito ou um lanche, pode ser um momento de pausa e atenção. Esteja presente e conecte-se com esse momento.
- Comer junto quando der: dividir uma refeição com alguém, família, colegas, vizinhança, fortalece a comensalidade. Quando não for possível, vale ao menos respeitar o próprio tempo.
- Preparar-se dentro da realidade: planejar suas refeições, cozinhar em maior quantidade quando há tempo e guardar pode facilitar ter refeições com mais calma por outros dias.
- Escutar o corpo: observar as sensações que o alimento te causa, perceber se a fome é física ou apenas resultado do estresse ou da pressa são práticas valiosíssimas.
Um pouco dessas recomendações já contribui bastante para uma relação mais equilibrada com a comida, favorece escolhas alimentares mais adequadas, ajuda na digestão, fortalece vínculos afetivos e preserva tradições culturais.
Comer consciente não é dieta, não é moda não exige refeições primorosas.
Trata-se de prestar atenção ao que se come, ao momento e ao contexto em que ela acontece. Vamos observar isso em cada refeição?
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