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A novidade foi anunciada com grande apelo emocional e visual, focando-se em alvos bem explícitos: comer comida de verdade e enfrentar problemas como obesidade e doenças crônicas. Acredita?
Mas não era para menos! O país que figura entre os maiores consumidores de ultraprocessados e é símbolo da cultura do fast foods enfrenta uma epidemia desses problemas de saúde.
Dados do “Centro de Controle e Prevenção de Doenças”, uma agência federal de saúde dos Estados Unidos, apontam que a obesidade afeta mais de 2 a cada 5 das pessoas adultas do país (e cresce a cada ano, inclusive entre crianças e adolescentes) e 75% sofrem de doenças crônicas.
Contudo, as novas diretrizes e a pirâmide alimentar estadunidenses levantam muitas questões críticas sobre alimentação saudável, ciência, clareza e interesses.
Esquema de pirâmide no prato
A pirâmide alimentar se propõe a organizar as diretrizes alimentares de uma maneira mais visual, mas nem sempre representa a diretriz oficial usada pelos países, como é o caso do Brasil.
Já é sabido que esse modelo de pirâmide alimentar está antiquada e se tornou ineficaz para comunicar as recomendações sobre uma alimentação saudável. Mais adiante falaremos a respeito e como o nosso Guia Alimentar veio para resolver isso: é mais importante para a nossa saúde olhar os alimentos pelo seu nível de processamento do que por calorias e nutrientes de forma isolada.
Mais carne, menos cereais integrais e outras contradições
O que o governo dos Estados Unidos está propondo é uma inversão da pirâmide. Eles a viraram de ponta cabeça e colocaram carnes e laticínios no topo, sinalizando que esses alimentos são centrais para uma alimentação saudável, ao mesmo tempo que alimentos baseados em grãos e cereais, como arroz, feijão, pães e massas, inclusive os integrais, ficam na parte inferior.
Essas recomendações são contrárias ao que os estudos recentes têm apontado sobre o que é uma alimentação adequada e saudável, que mostram os benefícios de padrões alimentares baseados em frutas, legumes, verduras, grãos e cereais, e com recomendações para a redução do consumo de carne em nome da nossa saúde e do planeta.
Além disso, a nova pirâmide estadunidense reforça o “mito da proteína” para favorecer o consumo de carne (já falamos sobre esse assunto em outra edição do Tá Na Mesa).
Há ainda outras questões, como incoerências nutricionais nas recomendações, desconsideração às diversidades e desigualdades sociais e uma fato que não causa muita surpresa: membros que desenvolveram as recomendações da nova pirâmide têm trabalhos apoiados por corporações da indústria de carne e laticínios, como tem sido denunciado por organizações de saúde, pesquisadores e grupos de defesa do consumidor.
Isso tudo revela quais são os maiores problemas dessa proposta: desrespeito ao consenso científico e os flagrantes conflitos de interesse na elaboração dessas diretrizes.
Um Guia Alimentar para nos orgulhar
As novas diretrizes dos Estados Unidos acertaram em duas coisas: 1) Ter como mensagem principal: coma comida de verdade e 2) Recomendar a evitação de ultraprocessados (por mais que tenham utilizado o termo “muito processados”) ! Mas nisso o Brasil já acerta desde 2014 e de uma forma bem explícita, quando o Guia Alimentar para a População Brasileira foi lançado.
Diferentemente do país do tio Sam, aqui o Guia Alimentar foi desenvolvido pelo Ministério da Saúde, com apoio de cientistas independentes que priorizam o interesse da sociedade e da saúde pública, não o da indústria.
O Guia Alimentar é referência no mundo todo pois:
- Abandona a contagem de nutrientes para focar no nível de processamento dos alimentos, a tal da classificação Nova
- Promove o consumo de "comida de verdade" (in natura/minimamente processados) e desestimula o consumo de ultraprocessados;
- Integra saúde e contexto cultural e social da alimentação, valorizando tradições alimentares; e
- Incentiva a diversidade alimentar e sistemas produtivos menos dependentes de venenos e monoculturas, promovendo a saúde humana e planetária, sendo considerado inovador por relacionar alimentação com sustentabilidade.
E por que isso importa
A maneira como as diretrizes alimentares são formuladas influencia a construção de políticas, programas e ações públicas que vão contribuir com a alimentação adequada e saudável da população.
Quando as diretrizes são moldadas por ideologia ou interesses corporativos, e não por ciência sólida, o risco é orientar milhões de pessoas de forma equivocada, podendo promover doenças ao invés de saúde.
Por isso, é essencial apoiar organizações que defendem políticas alimentares baseadas em evidências sem conflitos de interesse, transparência e equidade, como nós!
Junte-se ao Idec e contribua com essa causa!
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