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Superbactérias: A ameaça sanitária que se aproxima

Você já deve ter ouvido alguma vez que o uso de antibióticos deve ser feito com moderação e seu excesso faz mal à saúde… E se você soubesse que estão usando antibióticos de forma descontrolada na produção da nossa comida?

O atual modelo industrial de criação de animais para o consumo humano exige que uma grande quantidade de animais estejam aglomerados. Por isso, produtores adicionam antibióticos na ração antes mesmo dos animais ficarem doentes para acelerar a produção, promover o crescimento e evitar futuras infecções.

Esse modelo não só fere o bem-estar dos animais, mas está causando o desenvolvimento das superbactérias, bactérias resistentes a antibióticos. Ao entrar nos organismos dos animais, esses antibióticos produzem bactérias resistentes que se espalham no solo e nas plantas e chegam às pessoas não só através da carne, mas também através do consumo de água ou vegetais, por exemplo.

Além disso, o uso inadequado e excessivo de antibióticos como medicamento e a deficiência no controle de infecções hospitalares também vem ajudando na propagação dessas superbactérias. Ou seja, a proliferação das superbactérias tem diversas raízes. E deveríamos estar nos preocupando com isso.


Por que devemos nos preocupar com isso?

Porque as superbactérias podem ser a causa da próxima ameaça sanitária.

Ilustração de superbactéria

A resistência antimicrobiana, ou as superbactérias, já são uma realidade:

A utilização indiscriminada de antibióticos na produção animal industrial intensiva e no sistema de saúde tem desencadeado no aumento de bactérias resistentes aos antibióticos vigentes. Por isso, os antibióticos têm perdido progressivamente sua eficácia como tratamento de vários tipos de infecções bacterianas em humanos e em animais.

Ilustração de superbactéria

Está cada vez mais difícil desenvolver novas terapias:

Com a disseminação da resistência antimicrobiana (AMR) ou superbactérias, a indústria farmacêutica tem encontrado dificuldades e altos custos no desenvolvimento de novos agentes antimicrobianos. Isso tem resultado em maiores desafios médicos e graves problemas de saúde pública.

Ilustração de superbactéria

As mortes causadas por superbactérias vem crescendo exponencialmente:

Estima-se que infecções hospitalares por bactérias resistentes aos antibióticos sejam responsáveis por 700 mil mortes humanas em todo o mundo anualmente. Se essa tendência se mantiver, as projeções indicam que esse número aumentará para 10 milhões de mortes por ano até 2050. Esse número é maior que o câncer e a diabetes juntos. A resistência antimicrobiana pode ser a próxima pandemia e a hora de atuar é agora!


O que já foi feito para evitar o agravamento dessa crise sanitária?

Ações e soluções para esse desafio no Brasil e no mundo.

Desde os anos 90, o Idec vem alertando sobre o problema

O Idec sempre olhou com atenção para o uso correto de antibióticos, que são produtos fundamentais para garantir o acesso a tratamentos, mas que também devem ser preservados para que continuem funcionando. Já nos anos 2000, o Idec demandou maior controle na utilização de antimicrobianos na pecuária, contribuindo para ampliar a lista de antibióticos de uso restrito no campo. Em 2019, após um ano como observador, o Idec se juntou à Coalizão de Resistência a Antibióticos (ARC, em sua inglês). No mesmo ano, o Idec participou ativamente da campanha de defesa da Fundação do Remédio Popular - Furp, laboratório público paulista que produz penicilina benzatina, um antibiótico essencial e em falta em diversos lugares do mundo. E em 2021, o Idec se juntou à Proteção Animal Mundial para lançar seu primeiro documento de posição unificado sobre o tema, buscando fortalecer o engajamento da sociedade em torno do tema.

Superbactérias são um desafio internacional

A resistência antimicrobiana tem exigido soluções na agropecuária e na produção de medicamentos. Discussões internacionais sobre o assunto envolvem, organizações de ambas as áreas, como a OMS (Organização Mundial da Saúde), a OIE (Organização Internacional de Saúde Animal) e a FAO (Organização para Alimentação e Agricultura). As três organizações são parte de um secretariado conjunto tripartido para impulsionar o combate às superbactérias. Além disso, desde 2015, existe um Plano de Ação Global articulado pela OMS durante a Assembleia Mundial de Saúde.

Ilustração sobre superbactérias

Regulamentação na Europa

O uso de antibióticos como promotores de crescimento já estava proibida internamente na Europa desde 2006. E mais recentemente, a União Europeia aprovou nova regulamentação sobre o tema, restringindo fortemente o uso de antibióticos na produção agropecuária. Essas novas regras proíbem o uso rotineiro de antibióticos e restringem o uso preventivo a tratamentos excepcionais de animais individuais. Além disso, os antimicrobianos não podem mais ser aplicados para compensar as más práticas de higiene e pecuária. Mas ainda existem brechas que permitem a importação de alimentos vindo de países onde o uso ainda é indiscriminado.

E aqui no Brasil, qual é o cenário?

Um passo foi dado com a formulação do Plano de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos no âmbito da Saúde Única, o PANBR (2018-2022), que busca conservar a capacidade de tratar e prevenir doenças infecciosas com antibióticos eficazes e garantir sua qualidade e utilização de forma responsável e acessível. Em 2017, foi publicada a Diretriz Nacional para Elaboração de Programa de Gerenciamento do Uso de Antimicrobianos em Serviços de Saúde, com o objetivo de orientar os profissionais da área na elaboração e na implementação de programas. Já em 2019, a Anvisa iniciou o Projeto Stewardship Brasil, que tem o objetivo de avaliar o panorama nacional desses programas de gerenciamento em hospitais com unidades de terapia intensiva (UTIs) adulto.

Mas pouco ainda é feito na agropecuária

Estima-se que 75% da produção mundial de antibióticos se destine ao uso em animais de produção e o Brasil ocupa um dos primeiros lugares no mundo neste sistema de criação de animais. Ou seja, onde o problema é mais grave, o Brasil está longe de encontrar soluções. Estudos realizados no final de 2021 encontraram genes resistentes a antibióticos críticos para a saúde humana, como é o caso da cefalosporina, da ciprofloxacina e da penicilina em rios próximos a granjas suinícolas.


O que precisamos fazer hoje para evitar uma catástrofe amanhã?

Acesso sem excesso: Frear o processo de desenvolvimento de resistência pelas bactérias envolve primeiramente utilizar os antibióticos disponíveis de forma correta, ou, como se diz no meio farmacêutico, de forma racional, usando-os apenas quando forem necessários: somente no tratamento de uma infecção bacteriana diagnosticada; utilizando a substância mais adequada para cada situação; e monitorando o uso desses produtos nas redes de saúde.

Ilustração sobre superbactérias

Saúde e bem-estar animal: é preciso proibir o uso de antimicrobianos em animais de forma profilática, ou seja, antes da doença chegar e também como promotores de crescimento. O medicamento precisa ser usado para promover o bem-estar animal. Slogans e linhas de produtos "livres de antibióticos" também podem ter um efeito contrário e negligenciar a doença quando ela surge. Além disso, é necessário um controle mais transparente sobre a comercialização e uso desses antibióticos por parte das empresas produtoras, pontos de venda e órgãos oficiais, como o Ministério da Agricultura e o Ministério da Saúde.

Ilustração sobre superbactérias

Investimento em pesquisa: é necessário fomentar a descoberta de novos antibióticos por meio de investimento em pesquisas e desenvolvimento. Criar um novo medicamento envolve anos de pesquisa, desde o laboratório até os testes clínicos. Além disso, venda de antibióticos de baixo valor é pouco interessante para a indústria, a não ser em grandes volumes. Laboratórios públicos podem desempenhar um papel fundamental na resolução desse problema. A China e a Índia concentram massivamente a produção desses fármacos. Essa dependência externa pode ocasionar escassez quando há problemas na cadeia de distribuição. Em 2016, por exemplo, o Brasil sofreu com um surto de sífilis congênita por, dentre outras razões, falta de penicilina - problema que ainda persiste em algumas regiões do país.

Ilustração sobre superbactérias

Mudanças no ecossistema: organizações como a ReAct Latinoamericana relembra que é preciso uma abordagem ecossistêmica da resistência aos antibióticos, para substituir a metáfora da guerra, um paradigma dominante que vê as bactérias como nosso 'inimigo', por uma visão que compreende o papel essencial dos micróbios e da ecologia microbiana na saúde dos seres humanos. Nessa abordagem, o desenvolvimento de eubiotas como alternativa para antibióticos vem sendo uma tendência, mas não pode ser enxergado como solução unilateral. Doenças infecciosas ainda necessitam de antimicrobianos para serem tratadas.


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