Quando comer bem não depende só da gente
Nem sempre o que a gente coloca no prato vem da vontade.
Muitas vezes, vem do que dá.
Na escuta que realizamos com mulheres negras moradoras de favelas de Belo Horizonte, vimos que o acesso à alimentação é atravessado por questões de gênero, raça, renda, território e desigualdades estruturais.
E talvez a frase que melhor sintetize essa realidade seja simples e direta:
O que é em conta, infelizmente, é o que não é saudável.
Essa realidade está ligada ao preço dos alimentos, à menor oferta de opções saudáveis nas periferias e a um sistema que torna os ultraprocessados mais acessíveis.
O preço decide o prato
Para muitas famílias, o preço dos alimentos é o principal critério de escolha. Isso significa que, antes de pensar em qualidade ou preferência, é preciso pensar no que cabe no orçamento.
Na nossa pesquisa, vimos que estratégias como buscar promoções, trocar marcas e comprar em diferentes lugares fazem parte da rotina. Ainda assim, não resolvem o problema central: comer bem custa mais caro.
E quando a comida saudável é mais cara, ela deixa de ser uma opção e vira um privilégio.
Quem sustenta a alimentação da casa
Outro ponto importante é que essa realidade tem recorte claro de gênero e raça .
As mulheres negras aparecem como as principais responsáveis pela alimentação da família. São elas que:
- Fazem as compras;
- Organizam o orçamento;
- Cozinham; e
- Lidam com a falta de alimentos adequados e com a necessidade de fazer o pouco render no dia a dia.
Tudo isso, muitas vezes, em contextos de trabalho informal, baixa renda e sobrecarga doméstica.
Ou seja, não é só sobre comida — é sobre trabalho invisível, responsabilidade concentrada e acúmulo de funções.
Quando o território limita a escolha
O lugar onde a gente mora também define o que é possível comer.
Nas periferias, há:
- Menor oferta de alimentos in natura e minimamente processados;
- Maior presença de ultraprocessados;
- Dificuldade de transporte; e
- Preços mais altos em comércios locais.
Isso cria um ambiente alimentar que promove escolhas, menos saudáveis.
Além disso, a nossa pesquisa também aponta algo que nem sempre aparece nesse debate: o racismo no acesso à alimentação.
Relatos de discriminação em mercados e estabelecimentos mostram que até o ato de comprar comida pode ser atravessado por mais essa violência.
Saber o que é saudável não basta
Um dos pontos de atenção do estudo é que existe conhecimento.
As mulheres sabem o que é uma alimentação saudável. Elas falam de arroz, feijão, verduras, comida sem veneno. Elas sabem e querem comer bem.
O problema é outro: não ter acesso a isso todos os dias.
Quando o preço sobe, o tempo falta e o acesso é limitado, o que sobra são os produtos mais baratos, mais práticos e mais disponíveis, na maioria das vezes ultraprocessados.
O que sustenta essa realidade (e o que pode mudar)
Mesmo diante das dificuldades, a gente viu na nossa pesquisa algo potente: as redes de apoio seguem sendo fundamentais para garantir comida na mesa. Doações, cestas básicas, hortas coletivas, alimentação escolar e trocas entre vizinhos aparecem como estratégias de sobrevivência no cotidiano.
Mas esses caminhos também revelam um limite. Quando o acesso à alimentação depende da solidariedade, fica evidente a ausência de políticas públicas estruturantes para a garantia do direito à alimentação .
As próprias participantes do estudo apontam saídas possíveis: fortalecer a agricultura familiar, ampliar feiras com preços acessíveis, investir em hortas comunitárias e garantir políticas que assegurem comida de verdade nos territórios.
Porque, no fim, garantir uma alimentação adequada e saudável não é só matar a fome. É assegurar qualidade, acesso e dignidade.
Quer se aprofundar?
A gente reuniu os dados completos e as vozes que participaram dessa escuta no estudo “Acesso e aquisição de alimentos no Brasil com recorte de gênero e raça”. Vale a leitura para entender melhor como desigualdades estruturais impactam o que chega ao prato e por que garantir o direito à alimentação adequada passa por enfrentar essas desigualdades.
👉 Leia aqui a publicação.
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