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Pesquisa do Idec revela a dificuldade que os consumidores enfrentam para comprar os mais eficientes aparelhos de ar-condicionado
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Pesquisa do Idec constata que consumidores encontram dificuldade para comprar um ar-condicionado menos agressivo ao meio ambiente e que não inflacione a conta de luz

O verão promete. Para refrescar, sorvetes e bebidas geladas não faltarão no cardápio. E o aparelho de ar-condicionado, certamente, estará ligado a todo vapor em casas, apartamentos e escritórios. Boa ideia? Depende. Antes de defender esses equipamentos e abandonar de vez os leques, é prudente avaliar alguns aspectos, principalmente, se você for um consumidor preocupado com o consumo de energia, seja pelo impacto do preço na conta de luz, seja por questões ambientais.

Pesquisa do Idec feita com base em dados do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) detectou uma situação preocupante: a dificuldade para se encontrar no mercado ares-condicionados com as notas mais altas de eficiência energética. Outro ponto que chama a atenção é que os modelos splits mais eficientes não estão à venda.

ESCONDE-ESCONDE

Os pesquisadores suaram para encontrar nas lojas online os modelos mais eficientes de acordo com o Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE) do Inmetro. Dos dez equipamentos do tipo “janela” selecionados pelo Idec, apenas quatro estavam disponíveis. Dos splits com velocidade constante, somente três de uma dezena são, de fato, comercializados, e apenas quatro modelos do split com velocidade variável (chamados de inverter) foram encontrados, sendo que três possuem duas evaporadoras, o que significa que são usados em mais de um ambiente e, portanto, custam mais caro.

A segunda busca mirou os fabricantes, mais precisamente, os dez primeiros colocados no ranking do Inmetro. O resultado dos splits com velocidade variável decepcionou. Das marcas que estavam entre as “top 10” da eficiência energética, só duas estavam disponíveis on-line: Ventisol e Samsung. Já entre os modelos com velocidade variável, sete de dez são vendidos (Daikin MacQuay, Elgin, Komlog, Springer, Philco, Panasonic e Britânia), sendo que um tem duas evaporadoras. Apenas seis empresas fabricam o tipo “janela”, mas na Internet, apenas três marcas foram encontradas: Consul, Eletrolux e Gree. Saiba mais no quadro “De olho nas marcas”.

Em resposta ao Idec, a indústria preferiu se manifestar por meio da Associação Nacional dos Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros). “Um produto pode não ser encontrado no momento da pesquisa por vários motivos, como sazonalidade, interrupção temporária de fabricação etc. Trata-se de algo absolutamente comum e ocorre com qualquer produto. Esclarecemos também que a responsabilidade pela manutenção da Tabela de Produtos do Programa Brasileiro de Etiquetagem é do Inmetro, e os associados à Eletros seguem rigorosamente todas as determinações constantes nas legislações”, disse a nota oficial.

 

COMO FOI FEITA A PESQUISA

Esta pesquisa teve como objetivo verificar a disponibilidade de aparelhos de ar-condicio-nado eficientes em lojas online. Para tanto, foi considerada a base de dados do Inmetro, que conta com uma lista de todos os condicionadores de ar registrados no Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE). As informações foram usadas para avaliar os ares-condicionados dos tipos “janela” e “split” (este com velocidade fixa ou variável) – saiba mais sobre eles na página 18.

A partir dos equipamentos disponíveis nas tabelas, verificamos que as potências mais comercializadas para residências e comércios de pequeno porte eram a de 9.000 BTU/h e 12.000 BTU/h (unidade de medida usada para definir o quanto o equipamento é capaz de resfriar ou aquecer um ambiente).

Na primeira etapa, os dez equipamentos mais eficientes foram selecionados, desconsiderando o fabricante. Só depois, avaliamos os aparelhos mais eficientes por marca. Também estudamos o catálogo de alguns fabricantes, para checar se o aparelho com maior eficiência energética estava disponível on-line.

Clauber Leite, pesquisador em Energia e Consumo Sustentável do Idec

 

A Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava) também se manifestou. Nas palavras do vice-presidente do Departamento Nacional de Ar-Condicionado da entidade, Mauro Apor, a tabela do Inmetro é uma referência dos modelos que podem ser comercializados no mercado nacional. “Essa é uma etapa mandatória [verificação da tabela] a qualquer importador ou fabricante que queira disponibilizar produtos no mercado nacional. Ocorre que se um modelo deixa de ser fabricado e um novo é lançado para substituí-lo, ambos figurarão na lista do Inmetro, pois a comercialização ao consumidor é permitida”.

Para Clauber Leite, pesquisador em Energia e Consumo Sustentável do Idec e responsável pela pesquisa, a tabela deveria ser uma ferramenta para o consumidor. “As informações devem ser transparentes, acessíveis e atualizadas, pois é natural que quem esteja preocupado com o consumo de energia procure os meios oficiais antes de fazer sua escolha”.

RUIM PARA O BOLSO E O PLANETA

Se você está ressabiado com o que vai sair do seu bolso todo mês para pagar a conta de luz e também com o futuro do planeta, aí vai uma má notícia: no Brasil, o Coeficiente de Eficiência Energética (CEE) - que serve para medir a capacidade total de refrigeração de um aparelho e a energia que consome, ambos em Watts – mínimo para atingir a nota A é bem inferior aos praticados no Japão, de 6,5 W/W, na China, de 6,0 W/W, e nos Estados Unidos, de 4,6 W/W.

Aqui, o coeficiente máximo do melhor aparelho é 4,74 W/W. E não é por falta de arcabouço legal que isso ocorre. Ele existe. Está na Lei no 10.295/2001, conhecida como Lei da Eficiência Energética. Além disso, em 2007, foi aprovada uma regulamentação específica para os condicionadores, estabelecendo coeficientes mínimos de eficiência.

“O fato de a maioria dos aparelhos receber nota A não significa que estamos bem. O problema é que quase todos os aparelhos comercializados estão nesse nível, o que aponta, na verdade, uma deficiência nas políticas públicas”, ressalta Roberto Lamberts, coordenador do Laboratório de Eficiência Energética e professor titular e pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Para ele, há questões a serem debatidas, a começar pelo CEE.

Lamberts explica que, quando um condicionador de ar alcança o nível de eficiência A, ele recebe o Selo Procel - criado pelo Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica, programa do Governo Federal executado pela Eletrobras – ou seja, um rótulo que, teoricamente, representa menos consumo de energia enquanto o aparelho trabalha. “A questão é que o nível mínimo para se atingir a nota A começa em 3,24 W/W [baixo, se considerados os padrões internacionais], o que possibilita que muitos equipamentos entrem nessa faixa, mesmo não sendo tão econômicos. Tanto é que, hoje, ao ir às lojas, só encontramos aparelhos A, praticamente”, ressalta o pesquisador, que avalia como tímidos os índices de eficiência energética brasileiros.

Importante lembrar que os ares-condicionados podem elevar muito a concentração de gases de efeito estufa. É o que revela o estudo “O futuro do resfriamento”, da Agência Internacional de Energia (IEA), publicado em maio de 2018. Ele prevê que, até 2050, o consumo de energia por ares-condicionados deve triplicar, assim como a quantidade de aparelhos, que deve passar de 1,6 bilhões para 5,6 bilhões, ou dez novos aparelhos vendidos a cada segundo pelos próximos 30 anos. Os países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, são citados no relatório como os principais consumidores potenciais.

 

SPLIT X JANELA

  • Split: é composto de duas unidades, uma fica no ambiente interno (evaporadora) e outra no ambiente externo (condensadora). Pode ter velocidade constante, oscilando mais e consumindo mais energia, ou variável (Inverter). É menos ruidoso e consome menos energia do que o modelo “janela”.
  • Janela: modelo mais antigo, com condensadora e evaporadora acopladas no mesmo gabinete. Tem capacidade baixa de resfriamento e costuma ser mais barato. Consome bastante energia.
 

DE OLHO NAS MARCAS

Veja, a seguir, alguns dados que podem ajudar na hora de decidir qual equipamento comprar.

Daikin

Dos nove modelos disponíveis em seu catálogo (todos com nota A), apenas quatro aparecem na tabela do Inmetro com a nota mais alta. Esses equipamentos têm sistema Multi Split (que atende a mais de um ambiente), mas essa informação não está clara no site.

Philco
Os splits de parede (hi wall) apresentam altos Coeficientes de Desempenho (COPs) nas tabelas do Inmetro (quanto maior o COP, mais eficiente é o equipamento). Entretanto, a informação não está disponível no site da empresa.

Fontaine
Não há especificações técnicas nem catálogos para download no site da empresa. Na maioria das lojas online, apenas é informado o nível A, do Inmetro, e o Selo Procel. Apenas em sites especializados em ar-condicionado há especificação do COP.

Springer
O site tem uma ferramenta para comparar modelos de acordo com as especificações técnicas. Entretanto, nenhum aparelho foi encontrado na Internet.

Tivah
No site, há uma tabela que compara os modelos. Quando um modelo é selecionado, o consumidor é redirecionado para o site da STR, uma loja de equipamentos eletrônicos, que apresenta a mensagem “A página solicitada não existe, retorne e continue navegando”. Porém, o modelo mais eficiente foi encontrado em outros sites.

Elgin
Há diversas especificações técnicas no site e nos manuais para download. Entretanto, o Coeficiente de Eficiência Energética não é uma delas. Ele só foi encontrado no site www.leveros.com.br.

Fujitsu
O site é um exemplo a ser seguido, pois o modelo desejado é fácil de ser encontrado e há fotos e manuais com todas as especificações técnicas necessárias, inclusive o CEE.

 

SELO PROCEL: ÚTIL PARA O CONSUMIDOR

De acordo com Marcel Siqueira, gerente do Procel, “para garantir que o produto atenda aos padrões pré-definidos e receba o selo, o fabricante ou importador deve apresentar relatórios de ensaios de desempenho e segurança [realizados por um dos laboratórios participantes do programa]”. O professor Lamberts, da UFSC, entretanto, comenta que os laboratórios credenciados pelo Inmetro e pelo Procel devem passar por uma modernização para atingir esses objetivos adequadamente. “Não se constrói laboratórios novos de uma hora para outra, mas é preciso começar a pensar como pesquisar e entender novas tecnologias futuramente”, opina.

Estão previstos no regulamento do Selo Procel processos de reavaliação dos produtos, de modo a garantir que eles mantenham características técnicas ao longo do tempo. No caso de divergências nas características dos equipamentos que têm o selo, o fornecedor é notificado a dar esclarecimentos.

O representante do Procel defende ainda o Plano Anual de Aplicação de Recursos (PAR), que foi elaborado e aprovado após consulta pública realizada em 2017 com representantes do governo e atores da sociedade civil, entre eles o Idec. O plano prevê uma série de projetos relacionados à capacitação laboratorial, pesquisas de mercado, continuidade da avaliação da conformidade dos equipamentos, estudos para regulamentação do setor de refrigeração comercial e ações publicitárias com os produtos que possuem o Selo Procel. “No geral, essas iniciativas mostram que o selo, apesar de ser voluntário, em apenas dois anos já vem estruturando ações diferenciadas e com grande valor para a sociedade, que resultará em um consumo de energia cada vez mais eficiente nos próximos anos”, informa.

“O Procel precisa, sim, ser valorizado. No entanto, a nossa crítica principal é ao PBE, do Inmetro, que classifica quase todos os equipamentos como A”, argumenta Leite, do Idec. Além disso, este ano, saiu uma portaria que determina o novo nível mínimo para aparelhos e estabeleceu que o Inmetro deveria fazer uma nova classificação até dezembro de 2018. Contudo, isso não ocorreu.