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Produção urbana: por que falar sobre comida dentro das cidades? 

Hortas urbanas, PANCs e agricultura comunitária ajudam a transformar cidades em espaços mais saudáveis, coletivos e sustentáveis.

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Atualizado: 

18/05/2026
Duas mulheres em uma horta comunitária
Hortas urbanas fortalecem vínculos comunitários e ampliam o acesso à comida de verdade nas cidades.

Quando pensamos em produção de alimentos, é comum imaginar fazendas distantes, grandes plantações e áreas rurais. Mas a verdade é que a produção urbana já faz parte da vida de muitas cidades brasileiras — mesmo que, muitas vezes, ela passe despercebida.

Quintais produtivos, hortas comunitárias, escolas, terrenos coletivos, ocupações urbanas e pequenos espaços compartilhados vêm se tornando lugares de cultivo, troca de saberes e fortalecimento da alimentação adequada e saudável. Mais do que produzir comida, essas iniciativas ajudam a criar vínculos comunitários, ampliar o acesso a alimentos frescos, preservar o meio ambiente e aproximar as pessoas do território onde vivem.

A produção urbana também levanta uma reflexão importante: quem decide quais alimentos são valorizados e quais são considerados “não convencionais”?

Nesse debate entram as plantas alimentícias não convencionais (PANCs). Entre movimentos sociais, pesquisadores e coletivos, elas também vêm sendo chamadas de plantas alimentícias não colonizadas, justamente para questionar a ideia de que determinados alimentos seriam “estranhos” ou “fora do padrão” de consumo.

Afinal, muitos desses alimentos sempre fizeram parte da alimentação indígena, quilombola e popular no Brasil.

O que é produção urbana?

A produção urbana é o cultivo de alimentos dentro das cidades ou em regiões próximas aos centros urbanos. Ela pode acontecer de diferentes formas:

  • Hortas comunitárias;
  • Hortas escolares;
  • Quintais produtivos;
  • Agricultura periurbana;
  • Telhados verdes;
  • Jardins comestíveis;
  • Ocupações urbanas produtivas; e
  • Projetos comunitários e coletivos.

Além da produção de alimentos, essas iniciativas costumam envolver educação ambiental, fortalecimento comunitário e ações ligadas à segurança alimentar e nutricional.

Segundo o Guia Alimentar para a População Brasileira, cozinhar e se aproximar dos alimentos são formas importantes de fortalecer relações mais saudáveis com a comida. A produção urbana pode ajudar justamente nesse processo de reconexão.

Hortas urbanas e o direito à cidade

Falar sobre produção urbana também é falar sobre o direito à cidade. 

Na prática, isso significa pensar cidades mais justas, sustentáveis e acessíveis, onde todas as pessoas possam usufruir dos espaços urbanos, acessar serviços básicos, participar da vida coletiva e ter qualidade de vida,  incluindo o direito à alimentação adequada.

Durante muito tempo, o planejamento urbano foi pensado priorizando carros, consumo e especulação imobiliária. Nesse cenário, áreas de convivência, produção de alimentos e espaços verdes acabaram ficando em segundo plano.

As hortas urbanas surgem como uma alternativa importante para ocupar espaços ociosos, fortalecer comunidades e ampliar o acesso à comida de verdade.

Mais do que plantar alimentos, muitas hortas urbanas ajudam a criar espaços de encontro, troca e pertencimento.

Nas cidades brasileiras, o planejamento urbano é, muitas vezes, pensado priorizando carros, consumo e especulação imobiliária. Nesse cenário, áreas de convivência, lazer e produção de alimentos acabaram ficando em segundo plano.

As hortas urbanas surgem como resistência a esse modelo e como uma alternativa importante para ocupar espaços ociosos, fortalecer comunidades e ampliar o acesso à comida de verdade.

Mais do que plantar alimentos, muitas hortas urbanas ajudam a criar espaços de encontro, troca, pertencimento e preservação.

Produção urbana e hortas comunitárias fortalecem vínculos

Em diferentes cidades brasileiras, experiências de produção urbana mostram como a agricultura comunitária pode transformar relações sociais.

No Rio de Janeiro, por exemplo, iniciativas ligadas a comunidades quilombolas e territórios periféricos utilizam hortas comunitárias como espaços de fortalecimento cultural e coletivo.

As hortas também funcionam como locais de aprendizado intergeracional, onde conhecimentos sobre cultivo, alimentação e cuidado com a terra são compartilhados entre moradores. Em muitas dessas iniciativas, o cultivo de ervas medicinais também aparece como parte importante do cuidado coletivo e da valorização de saberes populares e tradicionais relacionados à saúde e ao uso das plantas no cotidiano. 

Entre os impactos positivos das hortas comunitárias estão:

  • Fortalecimento da convivência comunitária;
  • Ampliação do acesso a alimentos frescos;
  • Educação ambiental;
  • Educação alimentar e nutricional;
  • Valorização de saberes populares;
  • Ocupação coletiva de espaços urbanos;
  • Incentivo ao consumo de alimentos in natura; e
  • Redução de resíduos orgânicos por meio da compostagem.

Hortas urbanas no Nordeste e experiências comunitárias

No Nordeste brasileiro, diferentes iniciativas de produção urbana também vêm mostrando como o cultivo de alimentos pode fortalecer comunidades, ampliar o acesso à alimentação adequada e valorizar o cuidado coletivo.

Em Recife, a organização Casa Menina Mulher, fundada em 1994, desenvolve experiências com hortas orgânicas comunitárias articuladas ao fortalecimento social e à autonomia de mulheres em situação de vulnerabilidade. A iniciativa conecta produção de alimentos, educação ambiental e geração de renda, mostrando como as hortas urbanas também podem funcionar como espaços de acolhimento e transformação social.

Experiências como essa ajudam a fortalecer a segurança alimentar, ampliar o contato com alimentos frescos e criar redes de apoio nos territórios urbanos.

Além da produção de alimentos, as hortas urbanas também contribuem para melhorar o microclima das cidades, ampliar áreas verdes e estimular relações de cuidado coletivo e pertencimento comunitário.

Mulheres do GAU e a agricultura urbana em São Paulo

Em São Paulo, o projeto Mulheres do GAU destaca a força feminina na agricultura urbana.

A iniciativa reúne mulheres agricultoras que atuam na produção de alimentos saudáveis dentro da cidade, fortalecendo redes comunitárias e criando alternativas de geração de renda.

A experiência mostra como a produção urbana também pode ser uma ferramenta de autonomia econômica e valorização de territórios periféricos.

Além disso, iniciativas como essa ajudam a romper a ideia de que a produção de alimentos é algo distante do cotidiano urbano.

Hortas escolares e educação alimentar e nutricional

A produção urbana também pode estar presente nas escolas.

O programa Hortas Cariocas, no Rio de Janeiro, é um exemplo de iniciativa que conecta educação ambiental, alimentação saudável e agricultura urbana.

Ao participar do cultivo de alimentos, crianças e adolescentes passam a compreender melhor o ciclo da comida, o cuidado com a terra e a importância dos alimentos in natura.

As hortas escolares também ajudam a:

  • Estimular hábitos alimentares mais saudáveis;
  • Fortalecer a educação ambiental;
  • Aproximar estudantes da natureza;
  • Incentivar o trabalho coletivo; e
  • Ampliar o conhecimento sobre biodiversidade alimentar.

Além disso, esses espaços podem contribuir para reduzir a distância entre consumo e produção de alimentos.

PANCs: por que questionar o “não convencional”?

Quando falamos em produção urbana, as PANCs aparecem como um tema importante.

Ora-pro-nóbis, taioba, bertalha e peixinho-da-horta são alguns exemplos de plantas alimentícias consumidas em diferentes territórios brasileiros há muitas gerações.

Mas então por que elas foram chamadas de “não convencionais”?

Essa classificação ajuda a mostrar como o sistema alimentar dominante valoriza apenas alguns alimentos, enquanto outros acabam invisibilizados.

Além disso, muitas dessas plantas estão espalhadas pelas cidades, não necessariamente apenas em hortas urbanas. Elas podem crescer em quintais, canteiros, calçadas e terrenos diversos, promovendo um olhar mais atento para o meio urbano e ampliando as possibilidades de relação com a comida, com a biodiversidade e com a própria cidade.

Por isso, alguns movimentos vêm utilizando a expressão ‘plantas alimentícias não colonizadas’, destacando que esses alimentos fazem parte de saberes ancestrais, indígenas, quilombolas e populares.

Mais do que ampliar a diversidade alimentar, as PANCs ajudam a fortalecer:

  • Biodiversidade;
  • Soberania alimentar;
  • Valorização cultural;
  • Alimentação regional; e
  • Resgate de saberes tradicionais.

Produção urbana e circuitos curtos de comercialização

Outro tema importante dentro da produção urbana são os chamados circuitos curtos de comercialização.

Eles acontecem quando a distância entre quem produz e quem consome é reduzida.

Alguns espaços e iniciativas que favorecem isso são:

  • Feiras locais;
  • Hortas comunitárias;
  • Cestas agroecológicas;
  • Vendas diretas;
  • Cooperativas; e
  • Mercados de bairro.

Esses circuitos ajudam a fortalecer economias locais e aproximam consumidores da origem dos alimentos.

Além disso, podem reduzir impactos ambientais relacionados ao transporte de alimentos em longas distâncias.

Cidades comestíveis: uma nova forma de pensar o urbano

O conceito de cidades comestíveis propõe uma reflexão importante: e se as cidades fossem planejadas também para produzir comida?

Isso significa imaginar espaços urbanos com mais árvores frutíferas, hortas públicas, jardins comestíveis e áreas coletivas de cultivo.

Mais do que uma tendência, essa ideia busca construir cidades mais sustentáveis, resilientes e conectadas à alimentação saudável.

No Brasil, iniciativas como hortas comunitárias em escolas, projetos de agricultura urbana em periferias e espaços coletivos de cultivo em cidades como Recife, Rio de Janeiro e São Paulo mostram que já existem caminhos possíveis para integrar a produção de alimentos ao cotidiano urbano.

Em diferentes partes do mundo, cidades também vêm incorporando essa lógica ao planejamento urbano, criando parques comestíveis, hortas públicas e políticas voltadas à agricultura urbana como parte das estratégias de sustentabilidade e segurança alimentar.

Produção urbana não resolve tudo, mas aponta caminhos

É importante lembrar que a produção urbana não deve ser vista como solução única para os desafios alimentares das cidades.

Questões como desigualdade social, insegurança alimentar e nutricional, acesso à terra e concentração do sistema alimentar exigem políticas públicas amplas e estruturantes.

Ainda assim, hortas urbanas, agricultura comunitária e iniciativas coletivas ajudam a construir caminhos possíveis para cidades mais saudáveis e conectadas às pessoas.

Elas mostram que produzir alimentos dentro das cidades também pode ser uma forma de fortalecer vínculos, ampliar direitos e repensar a relação entre território, alimentação e cuidado coletivo.

Nesse processo, iniciativas que aproximam consumidores de quem produz os alimentos também fazem a diferença. O Mapa de Feiras Orgânicas, por exemplo, ajuda a localizar feiras agroecológicas e produtores em diferentes regiões do Brasil, fortalecendo os chamados circuitos curtos de comercialização e incentivando escolhas mais conectadas à comida de verdade e à agricultura local.

Porque, no fim, pensar na alimentação também é pensar o tipo de cidade que queremos construir.