As mentiras que colocam no nosso prato
Quando o assunto é alimentação, informação não falta. O problema é que, ao mesmo tempo em que existem orientações baseadas na ciência e no Guia Alimentar para a População Brasileira, também circulam narrativas que confundem, simplificam ou escondem problemas importantes do nosso sistema alimentar.
Muitas dessas ideias ajudam a deslocar a discussão para escolhas individuais, quando, na prática, estamos falando de um tema coletivo, que envolve políticas públicas, indústria, acesso e direito à alimentação adequada.
Nesta edição, reunimos algumas das mentiras mais comuns sobre comida e explicamos o que está por trás delas.
1. Ingrediente fantasma
O que te contam
Se o produto tem imagem, nome ou sabor de um alimento natural, é porque ele está ali de verdade.
O que a realidade mostra
Nem sempre. O chamado ingrediente fantasma acontece quando um produto sugere a presença de ingredientes saudáveis como frutas, leite, mel ou cacau, mas eles não estão presentes ou aparecem em quantidades muito pequenas.
Nesses casos, o sabor e o cheiro vêm de aromatizantes, substâncias usadas para imitar o gosto do ingrediente natural. Ou seja, não é a mesma coisa: trata-se de uma versão artificial do sabor, que substitui o alimento de verdade e não oferece os mesmos benefícios nutricionais, além de estar associada ao consumo de ultraprocessados.
Essa estratégia pode induzir ao erro e fazer com que a gente acredite estar consumindo algo mais natural do que realmente é. Na prática: não basta confiar na frente da embalagem. A lista de ingredientes é o que revela o que realmente estamos consumindo e ajuda a identificar quando o “natural” é só aparência.
2. “Agrotóxicos são necessários e inofensivos”
O que te contam
Sem os agrotóxicos, muitas vezes chamados de “defensivos agrícolas” por setores do agronegócio e da indústria, não seria possível produzir alimentos.
O que a realidade mostra
Diversos estudos apontam riscos associados à exposição a agrotóxicos, especialmente para trabalhadores rurais, comunidades próximas e também para quem consome esses alimentos no dia a dia. Essas substâncias também podem ser entendidas como venenos e deixam resíduos nos alimentos, além de impactarem o ambiente e a saúde.
Além disso, já existem experiências agroecológicas que mostram que é possível produzir com menos impacto ambiental e sanitário. Na prática: o debate não é só sobre produção, mas sobre saúde, meio ambiente e modelo de sistema alimentar.
3. “Comer bem é só questão de escolha”
O que te contam
“Pra comer bem, é só querer.”
O que a realidade mostra
A alimentação não depende só da vontade individual. Ela é influenciada por fatores como:
- Preço dos alimentos
- Acesso no território
- Publicidade
- Disponibilidade
- Rotulagem
- Políticas públicas
Ou seja, nossas escolhas são moldadas pelo ambiente alimentar em que vivemos. Na prática: falar de alimentação saudável também é falar de desigualdade e de direito.
4. O mito do “zero açúcar”
O que te contam
Se é “zero açúcar”, então é saudável. O que a realidade mostra
Muitos desses produtos:
- Continuam sendo ultraprocessados, com a presença de inúmeros aditivos alimentares
- Utilizam edulcorantes (adoçantes) no lugar do açúcar
- Têm baixo valor nutricional
Trocar ou retirar um ingrediente não transforma automaticamente o produto em saudável. Na prática: o grau de processamento importa mais do que um único atributo no rótulo.
5. “Tirar ultraprocessados da escola não faz diferença” O que te contam
As crianças vão consumir de qualquer forma, então não adianta regular. O que a realidade mostra
O ambiente escolar tem papel fundamental na formação de hábitos alimentares. Estudos mostram que restringir ultraprocessados nas escolas contribui para reduzir o consumo desses produtos.
Além disso, a escola é um espaço estratégico para educação alimentar e nutricional e valorização da comida de verdade. Na prática: políticas públicas fazem a diferença.
Pra fechar
A desinformação sobre alimentação não surge por acaso. Muitas dessas narrativas ajudam a proteger interesses econômicos ou a individualizar um problema que é coletivo.
Por isso, informação de qualidade, políticas públicas e participação social são essenciais para construir ambientes alimentares mais justos e saudáveis.
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