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Enquanto cresce nas redes sociais o discurso de que alimentação saudável é uma escolha individual, um estudo do Idec, em parceria com a UFMG, revela uma realidade bem diferente nas periferias de Belo Horizonte: o que chega ao prato passa, antes de tudo, por renda disponível, território, mobilidade, oferta local de alimentos e racismo estrutural. Essa realidade está ligada ao preço dos alimentos, à menor oferta de opções saudáveis nas periferias e a um sistema que torna os ultraprocessados mais acessíveis.
A pesquisa ouviu 57 mulheres de oito favelas de Belo Horizonte, em grupos focais conduzidos pelas pesquisadoras do Grupo de Estudos, Pesquisas e Práticas em Ambiente Alimentar e Saúde (GEPPAAS), da UFMG, Luana Lara Rocha e Letícia Lopes Vieira, para entender como preço, mobilidade, sobrecarga feminina e racismo são barreiras severas à segurança alimentar e nutricional e influenciam o que chega ao prato todos os dias.
O estudo mostra que há informação e desejo de manter uma alimentação saudável. As participantes citam arroz, feijão, verduras, legumes e alimentos sem veneno como referências de comida de verdade. O obstáculo, portanto, não está no conhecimento, mas no acesso cotidiano.
Como resumiu uma das entrevistadas: “O que é em conta, infelizmente, é o que não é saudável.”
Nesse cenário, o preço se torna o principal critério de escolha alimentar. Estratégias como buscar promoções, substituir marcas e comprar em diferentes pontos do bairro fazem parte da rotina, mas não resolvem a questão estrutural: quando a comida saudável custa mais caro, ela deixa de ser uma possibilidade regular e passa a refletir desigualdade social.
O estudo revela uma camada ainda mais crítica quando se observa o recorte racial. Entre as participantes, 47,3% são mulheres pretas, grupo que também concentra maior vulnerabilidade socioeconômica: apenas 17,5% estão empregadas, enquanto 31,6% dependem do trabalho informal e 22,8% recebem benefício social.
Esse cenário ajuda a explicar por que a insegurança alimentar e nutricional tem cor e gênero. Além de serem mais impactadas pela fragilidade da renda, as mulheres negras aparecem como as principais responsáveis por garantir a alimentação da família. São elas que fazem as compras, administram o orçamento doméstico, cozinham e lidam diariamente com o desafio de fazer o pouco render sem abrir mão da qualidade.
Outro ponto relevante são os relatos de racismo em mercados e outros estabelecimentos de varejo, mostrando que até o ato de comprar comida pode ser atravessado por constrangimento e discriminação.
Nas periferias, o ambiente alimentar é marcado por menor oferta de alimentos in natura e minimamente processados, maior presença de ultraprocessados, dificuldade de oferta local, mobilidade e transporte e preços mais altos no comércio local. Isso cria um ambiente alimentar que promove escolhas menos saudáveis.
“Mesmo diante das dificuldades, nós vimos na nossa pesquisa algo potente: as redes de apoio seguem sendo fundamentais para garantir comida na mesa. Doações, cestas básicas, hortas coletivas, alimentação escolar e trocas entre vizinhos aparecem como estratégias de sobrevivência no cotidiano”, disse a pesquisadora Luana Rocha.
Mas esses caminhos também revelam um limite. Quando o acesso à alimentação depende da solidariedade, fica evidente a ausência de políticas públicas estruturantes para a garantia do direito à alimentação.
As próprias participantes do estudo apontam saídas possíveis: fortalecer a agricultura familiar, ampliar feiras e outros pontos de venda com preços acessíveis, investir em hortas comunitárias e garantir políticas que assegurem comida de verdade nos territórios.
Porque, no fim, garantir uma alimentação adequada e saudável não é só matar a fome. É assegurar qualidade, acesso e dignidade.

