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O avanço de data centers no Brasil tem sido apresentado como símbolo de inovação e desenvolvimento. No Ceará, no entanto, o projeto em Caucaia revela um cenário mais complexo, marcado por denúncias de falta de transparência, riscos socioambientais e violações de direitos.
A população local só tomou conhecimento do empreendimento em julho de 2025, por meio da imprensa. O processo de licenciamento ocorreu de forma simplificada e fragmentada, o que levanta dúvidas sobre a real dimensão dos impactos avaliados. Para organizações da sociedade civil e comunidades do território, esse caminho reduziu o debate público e limitou a participação social em uma decisão que afeta diretamente suas vidas.
A situação se agrava quando se observa o impacto sobre o povo indígena Anacé. Lideranças denunciam que não houve consulta livre, prévia e informada, como determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que garante direitos fundamentais aos povos indígenas e tribais.
O cacique Roberto, liderança da comunidade da Japuara, afirma que o território indígena está sendo negociado para viabilizar a instalação de grandes empresas de tecnologia, sem o devido respeito aos direitos coletivos.
Diante desse cenário, organizações da sociedade civil passaram a atuar diretamente no caso, acionando instâncias de controle e pressionando por respostas institucionais.
Pressão institucional e avanço do projeto
Em agosto de 2025, Idec, Instituto Terramar, Lapin, IP.rec e o Escritório Frei Tito apresentaram uma representação ao Ministério Público Federal, que passou a investigar o caso.
Em dezembro do mesmo ano, uma perícia do Ministério Público Federal (MPF) apontou inconsistências no processo de licenciamento ambiental e alertou para riscos significativos associados ao empreendimento.
Já no início de 2026, mesmo com as investigações em andamento, o próprio órgão solicitou uma nova perícia. Paralelamente, as obras do data center foram iniciadas, aprofundando a tensão no território.
Para Julia Catão Dias, coordenadora do Programa de Consumo Responsável e Sustentável do Idec (Instituto de Defesa de Consumidores), as comunidades seguem enfrentando uma disputa desigual frente ao poder econômico e político mobilizado em torno do projeto.
“Não houve transparência nem participação social em uma decisão que impacta diretamente o território. E isso ganha ainda mais peso quando lembramos que o digital não é imaterial: para existir, depende de quantidades gigantescas de água, energia, minérios e território”, afirma.
Segundo ela, a instalação e operação de data centers geram impactos significativos sobre os territórios, pressionando infraestruturas locais e afetando diretamente comunidades. “Por isso, esse debate precisa acontecer com ampla participação e com poder real de influência das populações atingidas, especialmente daquelas que irão lidar diretamente com as consequências desses empreendimentos.”
O empreendimento previsto para Caucaia ocupa uma área equivalente a 12 campos de futebol e pode consumir até 300 MW de potência, o equivalente ao consumo de cerca de 2,2 milhões de pessoas.
Em uma região que já enfrenta crises hídricas, também está prevista a captação de água do Aquífero Dunas, essencial para o abastecimento local.
Ainda assim, autoridades seguem promovendo o projeto como sinônimo de progresso, com apoio de diferentes esferas de governo. Especialistas alertam que essa narrativa desconsidera os custos reais dessas infraestruturas e pode contribuir para a desinformação, ao associar inovação tecnológica a um modelo que amplia desigualdades e pressiona territórios.
Com a rápida expansão do setor, cresce a necessidade de garantir transparência, regulação e respeito aos direitos das comunidades, especialmente em regiões onde os impactos tendem a se concentrar.


