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Idec aponta ilegalidades na contratação sem licitação do BRT que liga São Paulo ao ABC

Em nota técnica, Instituto mostra ao Ministério Público do Estado de São Paulo que argumentos do governo não justificam a ausência de licitação

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Atualizado: 

05/11/2021

O Idec, ONG de defesa do consumidor, enviou na semana passada (27/10) ao Ministério Público do Estado de São Paulo uma Nota Técnica se posicionando contra a ausência de licitação na prorrogação do contrato do governo do Estado de São Paulo com a empresa Metra, que opera o Corredor ABD (que liga Diadema a Santo André, passando por São Bernardo do Campo). 

A prorrogação prevê a construção e operação do novo BRT ABC - que vai ligar São Bernardo do Campo à Capital paulista, passando por Santo André e São Caetano do Sul - e de todas as linhas metropolitanas da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos) na região do ABC que compõem a chamada Área 5. 

Segundo o Instituto, além de a medida ser ilegal, por desrespeitar a obrigatoriedade de licitação neste tipo de processo, ainda é prejudicial aos consumidores por prorrogar um contrato defasado, existente desde 1997 e que não contempla a realidade atual das cidades metropolitanas.

“O contrato estabelecido com a Metra é anterior à PNMU (Política Nacional de Mobilidade Urbana), de 2012, e por isso deixa de incluir obrigações mais modernas relativas à tarifa, à qualidade do serviço oferecida ao cidadão, entre outros itens”, explica Rafael Calabria, coordenador do Programa de Mobilidade Urbana do Idec. Ele acrescenta que a lei também prevê a realização de licitação para concessão da operação de serviço de ônibus. “Só por isso a iniciativa do Governo do Estado já é claramente ilegal. Mas ela fica ainda pior quando vemos que ela não resolve os problemas do déficit do contrato e do alto custo da tarifa."

Argumentos falaciosos

O Governo do Estado estabeleceu um contrato de 20 anos com a Metra, em 1997, para operar o BRT ABD. Em 2017 ele foi prorrogado por mais cinco anos, terminando em 2022. Agora, o desejo do Governo do Estado é estender por mais 25 anos esse prazo e incluir um novo objeto no contrato, sem realizar o processo legal de licitação:  a construção e operação do BRT ABC e de todas as linhas metropolitanas da EMTU na região do ABC que compõem a chamada Área 5. Para isso, João Doria cancelou, em 2019, o contrato de construção da Linha 18-Bronze do monotrilho, que faria o mesmo percurso e teria capacidade de transporte de passageiros superior. A decisão implicou em uma multa que pode chegar a R$ 1 bilhão.

Diante da situação, uma empresa que atualmente opera na Área 5 da EMTU, e que com a mudança perderá esse direito, acionou a Justiça alegando favorecimento da Metra no processo. O TJSP concedeu uma liminar favorável reconhecendo a ilegalidade. Porém, recentemente o Ministério Público do Estado de São Paulo se pronunciou reconhecendo a possibilidade de prejuízo para os cofres públicos caso o contrato não seja estendido como quer o Governo do Estado. 

Para justificar a prorrogação, o Governo do Estado alega que o contrato com a Metra está deficitário. Calabria esclarece que isso ocorreu em razão do modelo de contrato de ônibus que deixa todo o custo do sistema na conta da tarifa. “Se tivéssemos um contrato mais moderno, que remunerasse a empresa pelo custo do sistema, e não pelo número de passageiros, e que tivesse outras fontes de financiamento além da tarifa, isso não estaria ocorrendo. Refazer o processo de licitação é a grande chance de acabar com esses vícios e falhas”, defende.

Além disso, o governo Doria alega que, tendo a Metra monopólio de todo o serviço na região do ABC, a integração entre os ônibus melhoraria para o passageiro. “Isso não faz sentido. Temos cidades médias que possuem uma empresa de ônibus operando todo o serviço e não há integração. Por outro lado, a cidade de São Paulo possui mais de 20 empresas de ônibus operando e possui integração de até 4 viagens, porque a prefeitura subsidia essas integrações”, explica Calabria.

Outro mito é o risco de interrupção dos serviços nas linhas que a Metra já opera no ABC, caso a manobra de prorrogação do contrato não se efetive. Isso porque as linhas que a Metra já opera, fora do corredor ABD, são resultado de outros contratos, que vêm sendo prorrogados desde os anos 1980. “Claro que o governo precisa realizar nova licitação para essas linhas, mas isso independe do contrato do corredor ABD”, pontua Calabria.

O governo alega ainda que possui uma dívida de R$ 700 milhões com a Metra, e que com a ampliação do contrato essa dívida seria paga pelas novas atividades. Este argumento também não se sustenta, pois a dívida é resultado do contrato antigo que não prevê fontes de financiamento, portanto tem levado à déficits. “Com o contrato sendo ampliado e prorrogado com as mesmas regras, o que devemos ver no futuro é a ampliação dessa dívida e não a sua solução”, alerta o especialista do Idec.