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Mais baratos e frequentes na mesa dos brasileiros, ultraprocessados precisam ser repensados na alimentação

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Ecoa - UOL

Atualizado: 

06/05/2021
Foto: iStock
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Reportagem do Ecoa - UOL , publicada em 28/04/2021

Nos últimos tempos, Janny Lima da Silva, 43, só tem conseguido comprar o "básico do básico" — como ela define — para alimentar a família: arroz, feijão e alguma mistura.

"Antes dessa covid aparecer, minha família se alimentava melhor. A gente ainda podia comprar uma carne, uma fruta, uma verdura. Mas depois dessa doença, todo mundo desempregado, vive de bico quando aparece. Quando a gente pega num dinheirinho, corre pra comprar um arroz, um feijão, um óleo, um frango, um ovo, uma salsicha. O que o dinheiro der a gente compra", disse a Ecoa.

Moradora da Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo, ela vive em um barraco com mais sete familiares, entre marido, filhos e netos. Vez ou outra recebe uma cesta básica ou algum alimento de uma patroa. "Quando eu faço minhas faxinas, meus bicos, eu ganho umas besteirinhas, né? É biscoito, bolacha recheada, um pedaço de bolo, de queijo, alguma fruta que esteja muito mole. As crianças fazem uma festa. Nossa vida é assim", conta.

A situação da família de Janny se repete entre as pessoas do bairro com quem tem contato. Conhecida de Janny, a líder comunitária Conceição Paganele também relaciona esse padrão de consumo com o custo dos alimentos.

"O que eu vejo é que a população mais carente geralmente troca o hábito da fruta por essas coisas industrializadas", disse a Ecoa. "As crianças se acostumam com essa coisa da balinha, de muito doce, desses salgadinhos que parecem isopor, e não têm uma fruta [na dieta]. O dinheiro não dá pra ir na feira comprar fruta, comprar verdura".

A nível nacional o consumo de produtos ultraprocessados aumentou durante a pandemia de covid-19. Mas, como mostra a reportagem abaixo, há caminhos para devolver os alimentos in natura à mesa dos brasileiros. E, como toda questão complexa, é fundamental o apoio dos governos federal, estadual e municipal.

O que determina nossas escolhas?

Segundo especialistas entrevistados por Ecoa, o preço é um fator determinante da escolha alimentar, mas não é o único. Além de estarem alargando sua vantagem nesse âmbito, os ultraprocessados têm outros atrativos que estimulam a preferência da população por eles.

Entre eles, estão a disponibilidade e praticidade desses alimentos que são prontos para o consumo, não perecíveis e, portanto, mais duráveis, têm sabor intenso devido aos aditivos que possuem e são promovidos pelo marketing agressivo das empresas que os fabricam.

"Pelo modo como são produzidos e comercializados, estes produtos estimulam um consumo aumentado e o desenvolvimento de um padrão alimentar que substitui os alimentos in natura, minimamente processados e as preparações culinárias saudáveis", disse a Ecoa Laís Amaral, nutricionista e pesquisadora em Alimentos do Idec.

A especialista também destaca o impacto das mudanças de rotina provocadas pela pandemia de covid-19 sobre o modo de comer. Por serem vendidos como opções mais fáceis e rápidas de alimentação, os ultraprocessados acabam sendo incorporados como solução.

O que são ultraprocessados

Os alimentos não são mais divididos naquela pirâmide que muita gente teve como referência durante anos. Elaborada por pesquisadores brasileiros no fim dos anos 2000 e adotada em estudos feitos no mundo todo, a nova classificação divide os alimentos em categorias de acordo com seu grau de processamento industrial.

Por que os ultraprocessados são mais baratos?

1- Avanço tecnológico na indústria

Melhorias possibilitaram maior produtividade e menor custo de produção ao longo do tempo, beneficiando principalmente as grandes indústrias de alimentos e bebidas com a produção de ultraprocessados

2- Política agrícola nacional

Ao privilegiar a produção de commodities (como milho, soja e cana-de-açúcar) em larga escala, a produção agrícola brasileira também beneficia a produção de alimentos ultraprocessados, que utiliza esses itens e seus derivados como matéria-prima

3- Benefícios fiscais

Atendendo a pressões de associações da indústria de alimentos como a ABIA, o governo brasileiro concedeu benefícios fiscais significativos às companhias de Big Soda e Big Food no Brasil e isso se intensificou na última década

Consumo em alta

Durante a pandemia, o salgadinho de pacote foi campeão no ranking de processados mais consumidos — é o que mostra um estudo encomendado pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) ao Datafolha em 2020. Sua ingestão pelos entrevistados da pesquisa passou de 30% para 35% em menos de um ano. O consumo de processados foi particularmente alto na faixa etária entre 45 e 55 anos, na qual saltou de 9% para 16% entre 2019 e 2020.

Com relação ao consumo de alimentos in natura, a pesquisa mostrou que o consumo de pelo menos uma fruta diminuiu de 68% para 62% nos municípios do interior. A queda também se verificou na região Nordeste, onde a frequência do consumo de pelo menos uma fruta foi de 72% em 2019 para 64% em 2020.

Sistema de saúde sobrecarregado

Uma dieta baseada em ultraprocessados sai caro para a saúde da população e para o Estado. Esses produtos contêm uma quantidade elevada de sódio, gorduras e açúcares, e por isso estão ligados a condições como obesidade e doenças crônicas, que geram gastos com saúde para as famílias e para o Sistema Único de Saúde.

Em 2018, os custos com tratamentos para hipertensão, diabetes e obesidade no SUS foram estimados em R$ 3,45 bilhões, segundo um estudo do Ministério da Saúde publicado no ano passado pela Revista Pan-Americana de Saúde Pública.

O ano contabilizou um total de 1.829.779 internações por conta dessas doenças associadas à alimentação inadequada, o que corresponde a aproximadamente 16% do total de internações hospitalares no SUS no período.

A prevenção dessas comorbidades — principalmente por meio de políticas de incentivo à alimentação saudável — permitiria a aplicação de mais recursos em outras áreas da saúde, como a atenção básica. Além disso, teria contribuído para salvar vidas na pandemia de covid-19, já que a presença de obesidade e outras doenças crônicas tem sido responsável por aumentar a gravidade e a letalidade da doença.

"Se o cenário de preço dos alimentos não beneficia uma boa alimentação, a carga global de doenças crônicas não transmissíveis e da obesidade tende a aumentar ainda mais", alerta Emanuella Gomes Maia, professora do Departamento de Ciências da Saúde da Universidade Estadual de Santa Cruz, na Bahia.

Maia é uma das pesquisadoras que assinam o estudo sobre os preços dos ultraprocessados no Brasil publicado em 2020 pela revista Public Health Nutrition de Cambridge.

Ela lembra que a mudança no custo dos alimentos evidenciada pela pesquisa "expõe ainda mais a população de menor renda a práticas alimentares não saudáveis, que, somadas ao acesso limitado aos serviços de saúde, resultam em um aumento desproporcional da carga de obesidade e doenças crônicas nessa população".

Como mudar esse cenário?

Entre as políticas públicas colocadas em prática por governos para desincentivar o consumo de alimentos não saudáveis, a tributação tem sido a estratégia mais empregada. Ela visa a aumentar o preço de determinados produtos e com isso reduzir seu consumo.

Essa taxação vem sendo aplicada mais frequentemente a bebidas açucaradas, como os refrigerantes. Há outras estratégias possíveis nesse âmbito, como isenção de impostos para alimentos saudáveis e subsídios ou vouchers para grupos vulneráveis.

Nos últimos anos, a Organização Mundial da Saúde tem incentivado ações para alterar os preços dos alimentos a fim de melhorar a alimentação da população. "Na prática, o Brasil está na direção oposta ao que é recomendado pela OMS. Desde 1990, isenções fiscais têm sido concedidas pelo governo brasileiro às indústrias de refrigerantes", afirma a professora da UESC Emanuella Gomes Maia.

Agir sobre a tributação de alimentos, porém, não é a única medida que governos devem colocar em prática para desestimular o consumo de ultraprocessados e garantir que a população tenha acesso a uma alimentação adequada.

Vários países também já implementaram mudanças nos rótulos desses produtos, tornando mais claras e visíveis ao consumidor informações sobre a presença de substâncias críticas para a saúde. Outro fator que tem sido regulado por governos é a publicidade desses alimentos, principalmente aquela direcionada a crianças.

Órgãos internacionais e especialistas defendem ser necessário proteger a produção, distribuição, comercialização e consumo de alimentos saudáveis para que eles cheguem às pessoas a preços acessíveis.

Nesse campo, há uma série de políticas que poderiam estar garantindo a presença do arroz e feijão, de legumes, verduras e frutas na mesa do brasileiro hoje, mas que foram deixadas de lado pelo governo federal nos últimos seis anos.

É o que disse a Ecoa Rafael Claro, professor do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Entre essas políticas, ele destaca duas principais:

  • Manutenção de estoques regulatórios, prática em que o Estado compra grãos como arroz, feijão e milho para regular preços no mercado
  • Criar cadeias produtivas mais curtas, impulsionando principalmente médios produtores e a agricultura periurbana. Ela consiste no cultivo em áreas de transição entre o território urbano e rural e, quando ganha escala, reduz o custo dos alimentos in natura.

É possível mudar hábitos

Em um terreno no Jardim Filhos da Terra, bairro da Zona Norte de São Paulo, o projeto Prato Verde Sustentável produz entre seis e sete toneladas de alimentos agroecológicos por ano. Parte da produção é vendida para sustentar o projeto e parte é doada para a população vulnerável do entorno.

A cozinheira e copeira Maria das Graças de Melo Soares, 60, mora próximo à sede do Prato Verde Sustentável e é uma das consumidoras dessa produção. "Toda semana eu vou lá. Eles passam a lista do que tem, você escolhe cinco itens e vai lá pegar. Não sei o que eu faria se não tivesse [a cesta]", disse Soares.

Ela também enaltece a qualidade dos alimentos, que descreve como muito superior ao que se encontra nos supermercados. "Não precisa ser especialista pra ver a diferença de uma verdura tirada de um lugar que você está vendo para as que você compra no mercado", disse.

O Prato também mudou a alimentação de Marcia Regina Pena, 47, também moradora da Vila Zilda. Ela conheceu o projeto por meio da filha, que frequentava as oficinas de plantio realizadas antes da pandemia.

Assim como Janny Lima, da Cidade Tiradentes, Pena diz que as refeições de sua família são feitas do básico, mas que consegue ter acesso a verduras por conta do Prato Verde. Segundo ela, o conhecimento sobre cada tipo de alimento cultivado ali também ajudou a melhorar a alimentação.

A educação alimentar e ambiental é o outro pilar do projeto. Com oficinas, cursos e atividades oferecidas aos moradores da comunidade, a iniciativa vinha incentivando-os a plantarem em casa, no quintal, para quem tem, mas também em vasos ou na laje e assim a consumirem mais alimentos saudáveis.

Como começar uma horta em casa

Recomendações do Prato Verde Sustentável, projeto socioambiental que atua na zona norte de São Paulo produzindo alimentos e conscientizando a população de baixa renda para o consumo de alimentos saudáveis.

Ciclo de Alimentação

A alimentação é um direito previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e também na Constituição Federal brasileira. Isso significa o Estado tem a obrigação de garantir que a população tenha acesso a alimentos saudáveis e nutritivos em todas as suas refeições.

Com o agravamento da pandemia, mais do que nunca, precisamos falar sobre alimentação e combate à fome, investigar maneiras sustentáveis de produção, olhar para quem garante produtos in natura a preços acessíveis e, claro, cobrar políticas públicas efetivas.

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Reportagem do Ecoa - UOL , publicada em 28/04/2021

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