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Como sair das dívidas? Saiba por onde começar

Especialistas dão dicas e ex-superendividados contam como encontraram a luz no fim do túnel

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Valor Econômico

Atualizado: 

18/10/2019
Como sair das dívidas? Saiba por onde começar
Como sair das dívidas? Saiba por onde começar

Ione Amorim, economista do Idec — Foto: Divulgação/Idec

Reportagem do site do Jornal Valor Econônico, publicada em 08/10/2019

Um cheque especial aqui, um consignado ali. No começo, eles pareciam inofensivos. Por um bom tempo, as coisas ficaram sob controle para o professor universitário Rubens Adorno, de 64 anos. O salário não era nada mal. Dava para viajar e pagar as contas. Até que um dia, não dava mais para nada.

Quando percebeu a gravidade da situação, já estava com 120% da renda mensal comprometida, contas em quatro bancos e cinco cartões de crédito. O total da dívidas era 40 vezes o que ele ganhava. Com malabarismos, conseguia se manter em dia nos boletos e prestações.

“Chegou um momento em que deixei de gerenciar minha vida financeira e deleguei ao gerente do banco, porque ele dizia que podia fazer outro empréstimo e que eu tinha renda suficiente. Eu fazia uma ginástica financeira. Era 10 dias aqui no cheque especial, mais 10 dias ali”, conta Adorno.

Mesmo com um salário bem acima da média nacional, o antropólogo com doutorado e concursado da rede pública de ensino superior acumulou uma dívida de mais de R$ 600 mil, fruto de muitas ofertas de crédito fácil. Foi um empréstimo em cima do outro e prazos sempre mais longos, que acabaram aumentando exponencialmente os juros.

Esta pode não ser sua história, mas talvez seja a de algum conhecido. Segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), até 2018 já havia 30 milhões de brasileiros superendividados. São pessoas que já não conseguem ganhar dinheiro suficiente para pagar a dívida. Ela é maior que a renda.

“O superendividado não consegue pagar nem as contas básicas. Pra pagar o que deve aos bancos, deixa de pagar aluguel, água, luz. Ele está deixando de comer. Quando a dívida compromete a subsistência, a gente compreende que está superendividado”, afirma Ana Roberta Pires, especialista em defesa do consumidor do Procon-São Paulo.

Para quem está nessa situação, a vida financeira mais se parece um afogamento. É nadar, nadar e nunca chegar à praia. Sequer encostar os pés no chão para tomar fôlego e continuar.

Um ano de prestações depois, a dívida continua praticamente intacta. São os juros altos que dão essa impressão. Só no cheque especial a cobrança média é superior a 300% ao ano.

“A renegociação virou um grande negócio. Às vezes a taxa é mais baixa, mas a proposta é tão ruim que o consumidor vai voltar ao endividamento”, afirma a economista do Idec, Ione Amorim. Antes de tentar negociar um empréstimo, ela propõe que o endividado faça um exercício para entender o quanto da sua renda pode comprometer com prestações da dívida.

Professor Rubens Adorno participou do mini documentário "No caminho do superenvidamento", do Idec — Foto: Divulgação/IdecMas, à época, Adorno não sabia disso e aceitou as propostas por telefone feitas pelos gerentes dos bancos. O mesmo banco que mandava e-mail e ligava, sempre simpático, para oferecer mais crédito a prazo o colocou na Justiça. Nesse imbróglio todo, chegou a ter a conta-salário bloqueada.

Ficou mais de 60 dias sem receber nada, mesmo depois de a ação ter sido revertida judicialmente. No período, teve de pegar dinheiro com amigos para honrar as negociações já fechadas com outros credores. “Foi o momento que me causou mais sofrimento. Foi o ápice. Isso foi um desastre na minha vida. Talvez o maior desastre”, lembra.

A boa notícia é que, apesar do sentimento de impotência, dá para sair do buraco. Mas isso requer, antes de mais nada, saber onde buscar ajuda. Peça o quanto antes a boia de salvação. Foi assim para o professor, que era associado ao Idec e encontrou ali o apoio que precisava para contornar a situação.

“Consegui negociar com muito apoio do Idec, acionando ouvidoria dessas instituições financeiras e ficando em cima. Foi com muito empenho. Eu percebi que o problema não era meu individual, era coletivo. Ele tem a ver com uma certa avidez do sistema bancário em fazer empréstimo sobre empréstimo. Por isso hoje eu digo, consumidores de serviços bancários: associem-se”, afirma.

12 conselhos de especialistas para sair do endividamento

1 - Descubra quanto você ganha e o quanto gasta. Responda algumas perguntas, como: Quanto é sua renda? Quanto você gasta mensalmente? Quanto paga em parcelas? De quanto é a dívida em atraso? Existe uma tabela gratuita que pode ser baixada no site do Procon para preencher com informações importantes.

2 - Se mesmo assim tiver dificuldades de colocar tudo na ponta do lápis, procure ajuda. Você pode encontrar serviços gratuitos no Procon, Defensoria Pública e Serasa. O Idec também oferece ajuda aos associados, que pagam uma pequena taxa colaborativa.

3 - Esteja aberto a redesenhar seu estilo de vida, ainda que seja só por um tempo, até voltar à estabilidade. Uma vez que você sabe o quanto gasta, saberá de onde cortar. Desapegue. Venda objetos. Busque outras oportunidades de renda.

4 - Na hora de fazer o cálculo das suas finanças, entenda que seus parcelamentos com contas de cartão em atraso, consignado e dívidas financeiras não devem passar dos 30% da sua renda mensal.

5 - Portanto, evite aceitar propostas de negociação desfavoráveis, cujas parcelas ultrapassem os 30% da sua renda. As chances de se enrolar de novo nessas condições são mais altas.

6 - As contas fixas, como água, aluguel, alimentação e escola não devem superar 50% da renda mensal.

7 - O ideal é que sejam separados 20% do orçamento para a reserva de emergência. É um dinheiro para usar em caso de doença na família, desemprego, multa de trânsito, etc.

8 - Adiante parcelas e corte juros. Se estiver endividado, esses 20% da reserva de emergência podem ser parcialmente usados para adiantar parcelas de dívidas. O pior na dívida é ficar pagando juros. Dessa forma é possível reduzir os juros e até o prazo. Sempre opte por adiantar o que puder, contanto que isso não prejudique as outras contas.

9 - Evite novas parcelas, mas tente renegociar juros por outros mais baixos. Troque uma dívida cara por uma barata. Não espere ficar negativo para pedir ajuda porque fica mais difícil conseguir boas taxas quando se tem um histórico de crédito ruim.

10 - Cuidado com agiotagem - é crime! Sempre existe algum outro jeito. Agiotagem pode colocar sua vida, não só seus bens, em risco.

11 - Não caia em golpes que prometem limpar nome sem pagar a dívida. Não aceite pagar terceiros, foque no pagamento da dívida. O único jeito de sair limpo na praça é quitando as dívidas. Em alguns casos específicos, sem cobrança na Justiça, o consumidor deve ser tirado da lista de mau pagadores em até 5 anos.

12 - Tenha paciência. Cair no buraco é mais fácil que escalar para fora dele. Ficar em dia pode levar vários anos. Não existe milagre. É um exercício de autocontrole e organização que pode exigir tempo.

 

Ainda hoje, mais de dois anos depois de fechadas as negociações, Adorno ainda paga prestações para acertar as contas de vez. A diferença é que elas são parcelas fixas, previstas no orçamento. Em seis anos, ele terá quitado tudo.

O Idec dá esse tipo de suporte aos associados. A assinatura custa a partir de R$ 30 por mês para a instituição que, além desse trabalho, realiza pesquisas e promove palestras. Mas é possível conseguir ajuda por canais gratuitos.

Serviço para inadimplentes

Pelo site do Serasa, por exemplo, pessoas que estejam inadimplentes podem fazer consulta para descobrir quanto de desconto teriam nas multas e juros por atraso nas contas. “Nossa sugestão é que as pessoas façam a consulta no nosso site. Ele pode verificar quanto de desconto vai conseguir em dívidas atrasadas. Não precisam ser pessoas necessariamente negativados, mas com contas em atraso (inadimplentes)”, explica Joyce Carla, educadora financeira do Serasa.

A coordenadora de eventos, Arlete Alcantara de Andrade, de 50 anos, se enrolou depois de ter perdido o emprego. As contas do cartão, que sempre estavam em dia, acabaram se acumulando. Mesmo pagando o empréstimo, a dívida de R$ 10 mil virou R$ 28 mil.

Qualquer atraso na parcela significava voltar à estaca zero. Acordos eram cancelados e mais juros voltavam a incidir. Pelo Serasa, acabou conseguindo 95% de desconto no total da dívida. Os R$ 1.550 restantes foram divididos em 12 parcelas. Faltam só mais algumas para ela ficar livre.

“É horrível ficar com o nome sujo. Quando estamos negativados, a gente já não vai pra nenhum lugar onde precise parcelar porque passa muito vergonha. É doloroso pra mim precisar comprar um tênis pra o meu filho e não ter um cartão para parcelar. É constrangedor chegar numa loja e pedir boleto e eles não aprovarem. Agora, nasci de novo”, relata.

Há consumidores superendividados que não estão inadimplentes. Eles fazem das tripas coração para pagar as dívidas e, com muito sacrifício, conseguem fazer a bicicleta do seu orçamento continuar girando. Mas tudo vira uma bola de neve, já que muitos deles pegam outros empréstimos para pagar os anteriores e assim sucessivamente.

Alguns bancos se negam a fazer renegociação de dívida pelo simples fato das parcelas estarem em dia. Mas saiba que é um direito do consumidor tentar a portabilidade de crédito em outras instituições financeiras.

Reconhecer o perigo

Ione Amorim, economista do Idec, afirma que há sinais de alerta que devem ser reconhecidos antes que a situação se agrave. Por exemplo, fique atento se você usa o cheque especial com regularidade, faz parcelamento de cartão de crédito, já pediu mais de uma vez um consignado.

“São sintomas muito graves de que você está saindo do controle. Nesses comportamentos, já há sinais de alerta para que a pessoa faça alguns ajustes. Ela pode começar a tirar o supérfluo. Quando faz as contas pode avaliar, de onde tirar, cortar”, afirma.

Domar as contas

Ela defende ainda que os consumidores devem, antes de mais nada, saber onde estão pisando. É essencial reunir os boletos, faturas de cartão de crédito e fontes de renda da família.

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